terça-feira, 21 de julho de 2015

10 pontos para considerar em uma grande jornada, segundo Amyr Klink


Dinheiro? Medo? Solidão? Em entrevista exclusiva à GQ, o velejador reflete, a partir de suas experiências, sobre pontos fundamentais em uma grande viagem
Amyr Klink em meio às geleiras do Polo Norte (Foto: Reprodução/ Flickr)
Tem vontade de alcançar grandes feitos? Viver uma grande aventura? Pergunte a Amyr Klink como - mas não exatamente dessa maneira. "Não gosto de usar o termo aventura", ele diz sem rodeios, em seu escritório em São Paulo, durante conversa com a GQ. "Eu nunca tive aventura, nunca saí por aí sem rumo e voltei esborrachado. Gosto de ir sem problemas e chegar bem".

Independente do termo, Klink é referência no que diz respeito a experiências espetaculares. Em 2014, o velejador completou 30 anos de sua travessia do Atlântico a remo - feito até hoje nunca alcançado por outra pessoa. Suas expedições à Antártica lhe renderam fama e respeito entre seus pares, além de livros e convites para milhares de palestras para audiências no Brasil e no exterior.
Hoje, além de eventuais giros pelo mundo, Klink dedica-se a seu escritório de projetos, "inventando coisas malucas de todos os tipos, estruturas flutuantes, barcos, viagens, peças, mobiliário", como ele define. As mãos calejadas, porém, mostram que o trabalho manual ainda é uma constante.

A partir das experiências de vida do velejador, muitas delas passadas em alto-mar, é possível tirar uma série de lições, extremamente úteis para se planejar uma aventura - ou "grande viagem", usando um termo preferido por Klink. A partir de suas palavras, selecionamos 11 pontos para levar em consideração e se inpirar para seguir em frente rumo ao universo de jornadas bem sucedidas.


Os meios são tão - ou mais - importantes que os fins
Gosto muito de viajar, mas gosto muito do processo de conceber o equipamento. Não tenho o interesse de explorar safari na África. Não tenho saco pra isso, pra Disney, essas coisas. Gosto de experiências que sejam autênticas. E o interessante é o que o mundo tem ficado cada vez menos autêntico. Hoje pra você fazer uma escalada no Himalaia, K2, Everest, é um processo tão burocrático quanto tirar o visto de cidadão monegasco (de Mônaco). Também tá fora. Antártica também tá ficando difícil. Há 30 anos, você ia quando dava na telha. Hoje você tem que ter cadastros, certificações internacionais, é bem complicado. A pessoa fala: “Eu fui pra Antártida”. Desculpa, mas você não foi. Você foi levado pra Antártida – num barco de turismo, da Marinha, é diferente de você conceber os meios. Eu gosto é do processo. A viagem é só a cereja do bolo. É uma cereja deliciosa, mas não é meu objetivo.

A tecnologia é importante, mas não torne-se um refém
Acho o máximo [os avanços da tecnologia] se você não ficar se lambuzando com eles. Vejo gente que viaja e passa o tempo inteiro usando. Vai curtir a viagem. É como a fotografia. Fui evoluindo até que teve uma hora que encheu o saco. Para. Não trabalho pra ser fotógrafo. Resolvi parar. “Ah, mas as orcas estão chegando”. Vou olhar, guardar, curtir. Gosto de curtir as viagens, e não de virar escravo.
Amyr Klink em 1984, ano da travessia a remo do Atlântico Sul (Foto: Reprodução/ Flickr)
Viajar sozinho não quer dizer trabalhar sozinho
Tinha uma equipe maior quando viajava sozinho do que quando viajo em equipe, com cinco, seis, dez pessoas. Cada um cuida de uma coisa e sua carga de preocupação e responsabilidade se torna menor. Se vai dar certo, o conjunto, a gente não sabe. No final, você é o executor, mas a história toda aconteceu com a ajuda de muita gente. E o legal das experiências solo é que você tem que ter um equipamento e um conjunto de atitudes muito eficientes. Não tem espaço pra desperdício, abuso, prepotência, heroísmo. O cara que começa a passar da linha dá errado.

Desapego é essencial, mas não em todas as frentes
Você tem que ter competência. Não tem tempo para pensar em solidão, mãe, namorada, mulher. Quando você é o único operador no barco, você tem uma carga de tarefas que é brutal. Perdeu o controle do sono, por exemplo, você entra em colapso e não vai pra frente. Desapego é essencial pra parte operacional do barco. Se tiver que cortar o mastro, custou R$ 1,5 milhão, mas precisa? Corta. Precisa de desapego pra executar, tomar certas decisões. É mais simples quando se tem uma cabeça para tomar as decisões.

O medo pode - e deve ser - encarado como uma virtude
Tenho muito mais medo que um cara normal, mas eu administro bem. Eu gosto de ter medo. Todo mundo gosta. Tem gente que gosta de sentir medo no sexo. Tem gente que gostar de sentir medo escalando. Tem gente que paga para sentir medo no parque da Disney, naqueles looping malucos. O medo que eu tenho não está num ambiente controlado. Existe uma chance de você se dar mal. Mas eu acho mais excitante ainda, porque aí você tem que mostrar o que você sabe fazer.

Um grande líder é, acima de tudo, humilde
Na hora que você está executando você tem que ter o controle, mas nunca ficar por cima. Antes de mais nada, tem que ser humilde. Eu não conheço um velejador bom, de alto mar, que seja um cara prepotente, metido a besta. Não tem espaço pra esses caras. Esses são os primeiros que dançam. “Eu sou campeão olímpico”, ele pode dizer. Filho, vai lá lavar o banheiro e depois a gente conversa.

Não fique limitado ao planejamento: faça acontecer
No fundo, o mais importante é como fazer acontecer. Eu acho graça porque sou convidado pra fazer palestras pelo mundo sobre a importância do planejamento. Nenhuma. Não adianta planejar a vida inteira se você não para uma hora pra executar. Nenhum planejamento é perfeito. É um referencial do que vai acontecer. Se você tem um bom planejamento, provavelmente não vai acontecer nada do que está previsto ali. Mas o que acontecer de diferente você vai ter uma referencia pra saber o que fazer – “poxa, tá piorando a cada mês, logo é melhor mudar de estratégia”. É um processo que nunca se repete, a cada experiência nova você aprende mais.
Amyr Klink em meio às geleiras do Polo Norte (Foto: Reprodução/ Flickr)

Veja o dinheiro como um meio, não como um fim
Sei que o que eu faço custa caro. Se eu não tiver competência pra prover a parte financeira do que eu quero fazer, é melhor eu mudar de área. O que acontece hoje, principalmente no mundo latino americano,  é que muitos caras com ideias maravilhosas pensam que a solução virá do estado, do patrocinador, e não é assim que funciona. Vários brasileiros – tem cinco agora – chegando dizendo “vou remar o Atlântico. Me ajuda? Você faria uma declaração pra eu conseguir patrocínio?” Não. Se você for procurar patrocínio, você não quer remar. O barco de madeira custa 20 mil reais. Você não consegue esse dinheiro? Você tem carro, mora em São Paulo, onde a vida é cara... O dinheiro tem um papel importante, é uma linguagem que você tem que dominar, mas ele não pode virar o objetivo, um fim. Sempre um meio.

A única certeza é a permanência da dúvida
Não fico fazendo coisas pra tirar lições e dar conselhos para os outros. Eu detesto quem transforma sua atividade num exemplo para os outros. Não tolero, esses ditos caras da auto-ajuda. Conheço vários, amigos, mas não tenho saco. Não sei o que aprendi. Sei o que gosto de fazer. Primeiro, você ter certas convicções e ser fiel a elas. É importante ter essa clareza. E as dúvidas que eu tinha há 20, 30 anos, curiosamente eu tenho mais hoje. Você acha que com a experiência vai enxergando o trilho certo? Não. Mas acho isso muito legal.

Grandes experiências podem estar nas pequenas coisas
Têm experiências que são extremamente marcantes pra vida de um indivíduo, e às vezes elas acontecem sem esse glamour que transparece nas coisas que eu faço – que é falso. Claro que é legal ficar dois anos fora e voltar pra sua casa depois de uma travessia infernal. Mas tem muitas outras experiências que tenho presenciado hoje de gente em ambientes infestados de desconforto e insegurança nos quais eles se realizam mais do que se tivessem ganhado cem vezes a loteria.